domingo, 4 de novembro de 2012

Pior do que estava, ficou.


Nas últimas eleições para deputado federal, um palhaço foi eleito. Ele obteve um expressivo número de votos, que segundo alguns milhares de eleitores foi manifestação de protesto. Nesse e em outros cargos eletivos, foram eleitos também cantores de pagode, cantores de samba, gente que não canta nada, alguns atletas e atores. Mas manterei o foco no palhaço, por ser notória a atenção a ele destinada ultimamente, assim como os elogios que tem recebido de pessoas cujo voto foi ou não para ele.

O ilustre deputado não falta às sessões plenárias, não está envolvido em escândalos de desvio de dinheiro público e também não está sendo acusado de quebra de decoro parlamentar (expressão de eufemismo que serve para não dizer furto, roubo, mentira etc). Ora, por todos esses motivos ouvem-se gritos apaixonados e honestamente fiéis, ovacionando o caráter excepcionalmente impecável do político em pauta. Ele mesmo declarou que não pretende tentar se reeleger nas próximas eleições, pois no congresso há muita burocracia e interesses alheios, assim fica difícil fazer o que queria: chegar lá e votar projetos de lei para ajudar o povo brasileiro.

Após essa declaração, os gritos e elogios aumentaram consideravelmente. Pessoas se emocionam e ficam indignadas com o fato de o palhaço ter vontade de ajudar seu país, mas encontrar óbice na politicagem que assola seu órgão.

Concordo que é positivo alguém que quer sinceramente ajudar seu povo ter sido eleito, mas fora isso não há nada de bom nesse episódio.  O próprio fato de alguém chegar à câmara dos deputados e reclamar que é difícil votar projetos de lei importantes para o país já é em si uma ideia absurda. Ele não sabia disso. Não sabia também que existem interesses alheios entre centenas de políticos, partidos e lobistas inseridos no jogo político. O coitado não sabia que numa democracia pluripartidária por excelência impera a necessidade de apoios, alianças, toma lá dá cá e afins, fora incontáveis dispositivos burocráticos que fazem com que a legislação seja muito difícil de ser implantada, corrigida, suprimida ou simplesmente modificada.

Em suma, um palhaço vai receber dos cofres públicos no mínimo 1 milhão e 300 mil reais em 4 anos para descobrir que é difícil trabalhar no legislativo e que não tem capacidade de fazer nada de bom pelo Brasil e a galera o aplaude, glorifica, defende e canta junto.

domingo, 9 de setembro de 2012

semba


      Interessante um documentário sobre o Brasil, feito pela BBC, chamado Brazil from samba to bossa, ou algo assim...
      Sempre vejo patriotas fervorosos dizendo cheios de orgulho que “o samba é a música verdadeiramente brasileira”. Nem é. Essa batucada toda foi copiada da África, e lá não o faziam numa roda de candomblé para curtir o domingão, mas sim para louvar suas divindades.
     Mas isso todo mundo já sabe. O que talvez pouca gente reflita sobre, é como o samba se transformou no que é hoje, principalmente em fevereiro, no carnaval. Num primeiro momento, o ritmo começou nas comunidades carentes, e as músicas falavam de malandragem. O malandro era o principal personagem de praticamente todas as canções, e ele não era apenas isso, ele era idolatrado e tido como herói por toda a comunidade. Era bonito dizer que um homem jovem, sem estudo, sem emprego e sem posses, rasgou a pele de alguma pessoa não jovem, com estudo, com emprego e com posses para tomar seu relógio e depois parou no bar para tomar uma cachaça – outro símbolo de nossa cultura.
      Getúlio Vargas não gostou muito dessa desgraça cultural (malando tudo bem, mas ser idolatrado não) e proibiu o tema. A partir daí só samba falando da história do Brasil seria permitido. Se você algum dia teve dúvida sobre o porquê das escolas de samba ser dirigidas por barões do jogo do bicho ou do tráfico de drogas e mandarem fazer as letras das músicas falando bem do governo, é porque o Vargas mandou.
     Mas depois a censura acabou e os malandros voltaram a figurar com êxito nas composições novamente. Depois veio também o rap e o funk, ambos falando bem dos criminosos e mal da polícia. O mangue beat apareceu um pouco depois, mas o mangue beat não fala bem de traficantes, por isso não virou moda nacional. O forró veio antes, mas Luiz Gonzaga falava sobre o sofrimento do sertanejo e também não virou herói nacional.
      Hoje, isso que chamam de “funk” carioca tem uma aceitação enorme entre as comunidades mais simples em todo o território brasileiro. Curioso é que nesse documentário da BBC, um cantor de funk (ou de rap, mas isso não faz diferença agora) se lamentava dizendo que o funk em seu atual momento no Brasil vive uma fase muito ruim, as letras das músicas apelam para o sexo apenas, e de uma forma extremamente depravada e vulgar.
      Parei por alguns segundos para refletir sobre esse solene pronunciamento. Se eu tivesse um filho (ou filha), seria melhor ele(a) crescer ouvindo “pega no meu pau vadia...” ou “se os home subir no morro nóis mete pipoco” ? Infelizmente essas são as únicas opções que algumas pessoas pensam existir, afinal esse povo vaiou Carmem Miranda e tantos outros logo no começo...

domingo, 1 de julho de 2012

Fala Pompeu!

Essa semana houve um fato muito peculiar e pensei em tecer alguns comentários sobre ele, mas o Senhor Pompeu de Toledo publicou um texto simplesmente magnífico e elegantemente sedutor a respeito do ocorrido, então gostaria de reproduzir seu texto na íntegra: Iam mestre e Discípulo por uma bucólica estrada do Oriente quando ouviram uma voz a apregoar, por detrás de uma árvore: “Tenho um minuto e meio para vender”. Ao Mestre, o mais sábio entre os sábios, a voz não enganada. O tom artificial, o jeito de escandir as sílabas forçando-as até o limite... Era ele: Belial, Belzebu, Mastema, Semihazah, Azazel, Satã, Satanás. Também conhecido como o Cão, o Tinhoso, o Tisnado, o Coxo, o Rabudo. O Discipulo olhou para o Mestre, em busca de orientação. “Tenho um minuto e meio para vender”, repetiu a voz. O mestre considerou por um instante a situação. Um minuto e meio era artigo precioso demais para ser rejeitado assim sem mais nem menos. Além disso, se não o comprasse ele, outro o faria. Na mochila em que preparava a ração do Discípulo, ele já levava quase seis minutos. Com mais um e meio poderia considerar-se um milionário de minutos. A medida de Deus, como se sabe, é a eternidade. O Demônio, que é mais realista, aprendeu que em certas situações mais vale seduzir com minutos. O Mestre apaziguou o inquieto Discípulo. “Não se preocupe. Venha comigo e faça sempre o que lhe disser”. O Mestre tinha confiança desmedida em sua própria sabedoria e em suas intuições. Esperto por esperto, pensou, não é um Rabudo qualquer que vai me passar a perna. Pegou o Discípulo pelo braço e enfiou-se com ele para detrás da árvore. Negociaram no escondidinho. “Ufa, assim é melhor”, pensou o Discípulo. Mais confiança ainda depositou no Mestre: ele sempre sabe o que faz! A negociação fluiu muito bem, à sombra protetora da árvore. Acertaram o preço. Tudo já praticamente liquidado, faltava a entrega da mercadoria. Satanás disse que a guardava em casa. Um minuto e meio é produto precioso demais para ficar andando com ele no bolso. Convidou-os a ir à sua casa, para apanhá-lo. Como é sabido, se o ofício de Deus é perdoar, o do Demônio é tentar. Azazel tinha um plano, ao atraí-los à sua casa. Bem que o Mestre, a quem nada escapa, pensou duas vezes antes de concordar. Mas o prêmio do minuto e meio falou mais alto. Belzebu, como é também amplamente sabido, mora num lindo palacete. A mansão tem muros altos; impossível ser vista de fora. O Mestre considerou que estariam tão protegidos quanto atrás da árvore. “Nada a temer”, disse ao Discípulo, cuja inexperiência se revelava numa expressão de desassossego. “É só vir comigo e fazer sempre o que lhe disser”. A princípio tudo correu bem, na casa do Príncipe das Trevas. Ele mostrou-lhes o minuto e meio. Ali estava, reluzente como uma joia, num baú em que os visitantes puderam vislumbrar, porque escapavam pelas bordas, também extratos de contas de bancos em várias partes do mundo e até, estranhamento, alguns frangos. Depois, convidou-os a passar aos lindos jardins do palacete. Era nesse cenário que, segundo seu plano, teria lugar a melhor parte da peça. Outro dos nomes de Satã é Macaco de Deus. Ele está sempre a macaquear Deus. Estes enviados de Deus que são os santos promovem curas ao simples toque das mãos no corpo dos aflitos. O Macaco de Deus imita-os. Como é de sua índole perversa, porém, não é para curar que o faz. A intenção do Tisnado é tisnar o tocado com suas manhas. Uma vez no jardim com os convidados, Belial mostrou-se insuperável na arte da expressão corporal e do toque. Dirigiu-se ao Mestre com os polegares em sinal de positivo. Abraçou-o como se fossem velhos camaradas. E, num momento entre todos significativo, levou a mão à cabeça do Discípulo, acariciando com paternal beatitude seus negros cabelos. Com o gesto, fazia-o seu. Indicava que, tal qual o Mestre, também tinha reservas de ternura e zelo protetor a oferecer. Ao invés do que ocorrera por detrás da árvore, fotos e filmes registraram a cena. Se há uma coisa que o Demo aprecia é fazer as coisas ao contrário. Às vezes, ele se apresenta com os pés ao contrário; em outras, fala ao contrário. Desta vez, posou para as câmeras como se fosse um ente normal, com quem não se teme fazer negócio às claras. Era isso que tinha em mente; conseguiu-o. O Mestre parecia constrangido, mas, bem pesadas as coisas, consolava-o o minuto e meio que já tinha guardado na mochila. Quem vai lembrar, quando chegar a hora de a onça beber água, que para consegui-lo pagou um sobrepreço? O Discípulo tinha a pulga atrás da orelha, mas quem era ele para duvidar das estratégias e dos estratagemas do Mestre? Esta fábula não tem moral. No oriente, onde se passa, costuma dizer que o que tem é imoral, ou amoral. São muito escrupulosos por lá.

domingo, 20 de maio de 2012

Sou ignorante

É um bordão já antigo: “quem não lê, não fala, não ouve e não vê”. Também se diz que não adianta apenas ler, mas é necessário saber separar literatura de qualidade do lixo de letrinhas. Depois de selecionada a “boa” leitura, é ainda essencial estabelecer filtros e técnicas para não cair em armadilhas intelectuais e acabar seduzido por argumentos equivocados – embora na maioria das vezes não falaciosos. Feito isso, o próximo passo é escrever; e para escrever é, outrossim, inevitável seguir regras e conceitos pré-estabelecidos. Como sempre, não estou sendo original, mas apenas repetindo algumas lições que aprendi quando inventei de querer não mais tirar notas baixas em redação. Em parte funcionou, não por mérito próprio, mas por ter tido bons professores. O que não funcionou e deixou-me frustrado foi o fato de eu estar perseguindo conhecimento na complexidade e nesse ínterim ter acreditado que estava no caminho certo. Segundo Sócrates (ou Platão, como queiram) eu estava no caminho certo, e talvez com muito esforço permaneça nele. Estou me referindo não mais ao conhecimento de mundo e às informações e dados, mas à ignorância; a onipresente, onipotente e beligerante ignorância. Ela me ignora, mas eu não a ignoro. Tampouco a adoro. Daí vem a frustração à qual me referi há pouco. Se não existe almoço grátis na natureza, o “não saber” é a moeda de troca responsável por toda a compra e venda de caráter cognitivo que poderei efetuar enquanto viver. Se aprendi algo é porque deixei de não sabê-lo, se não sei algo é porque estou na iminência de adquirir patrimônio intangível, e assim sopesar tal frustração com menos tristeza, e não com mais felicidade. Raul Seixas disse uma vez (ele também repetia algumas coisas dos antigos) que se fosse burro não sofreria tanto. Creio que essa seja a primeira reação reflexa quando se descobre que não existe almoço grátis. A segunda é dizer “não, obrigado” à tentação de aniquilar o sofrimento – que ora se apresenta como lobo em pele de carneiro, ora como carneiro em pele de lobo, depende apenas se você se acha inteligente ou se admite que é ignorante.

domingo, 29 de abril de 2012

No Brasil, quem não deve teme

Quando eu era criança já era comum os noticiosos exibirem manchetes sobre corrupção, desvio de verba pública, desonestidade generalizada por parte da classe política. Cresci ouvindo gente sem muita informação indignada xingado os "ladrões" e depois pude ouvir indignações um pouco mais elaboradas por professores na escola, e, ato contínuo, saí da escola e me tornei eu mesmo um indignado xingador. Ora, essa é a regra, não é? Será que alguém foi educado nos anos 80 ou 90 e aprendeu que o exemplo de retidão de caráter é dado exclusivamente por pessoas que exercem cargos públicos? Talvez a expressão "mentir para si mesmo" encontre aqui um lugar para se sentir confortavelmente instalada, mas fora isso creio que não existam exceções. Mas um dos questionamentos que a minha geração (e as anteriores, e as posteriores...) mais ouviu foi a seguinte: "por que nenhum político corrupto vai para a cadeia?". Ouso dizer que essa pergunta não está incorreta, mas está incompleta. O mais correto, na minha opinião seria indagar: "por que nenhuma pessoa corrupta com algum poder e influência vai para a cadeia?". Eu não entendia por que essa questão tão óbvia não era logo resolvida, pois o clamor popular por justiça há algumas décadas era mais fraco (não existia internet), mas sempre existiu. Eu não entendia, pois não fui treinado para entender. Fui treinado para xingar, para me indignar, para questionar. Por outro lado também fui treinado para esquecer disso tudo e me entreter com bobagens e idiotices populares, mas fui incompetente para aprender essas coisas, e depois de algumas décadas (estou ficando velho) continuam tentando me doutrinar, mas desisti de tentar aprender, já estou quase ranzinza. Enfim, para quem - como eu - sempre se sentiu ressentido de conviver com essa pedra no sapato, eis a resposta que ouvi há uns dias no jornal: "existe um projeto tramitando no congresso para que ao crime de improbidade administrativa seja comutada pena restritiva de liberdade". É simples assim: para quem enriquece ilicitamente com o dinheiro suado do povo, não há na lei previsão para ir para a cadeia. Na minha infância e adolescência eu sempre achei que isso fosse coisa de gente safada. Mas não: é a lei. Já ia atirar os braços para o alto em desespero absoluto, mas nem tudo está perdido: ao menos a lei estipula que o "ladrão" deve devolver o dinheiro produto da improbidade, entre outras penas ridículas, Paulo Maluf que o diga, uns 3 milhões mais pobre recentemente. É pouco, é quase nada, mas é algo. A nova lei Maria da Penha foi uma boa porque bota na cadeia os maridos machões? Ótimo, mas que tal agora uma nova lei de improbidade administrativa que bota na cadeia as pessoas desonestas?

domingo, 22 de abril de 2012

você cumpre pena?

Está hoje na berlinda a revisão do código penal brasileiro, pois trata-se de um texto elaborado na década de 40. É considerado defasado, já que o contexto em que foi escrito mudou bastante. Vejo doutrinadores de peso como Rogério Greco criticando severamente o código penal e ironizando-o, considerando ridículo alguns preceitos que na época eram vigentes e hoje foram superados. Será então que as leis mais recentes estão desprovidas de tais absurdos? Vejamos.
A lei 8072 é da década de 90 e não considera "matar alguém" como crime hediondo, mas considera hediondo o crime de falsificar produtos terapêuticos. Se alguém estiver em dúvida sobre dar dois tiros no peito do vizinho ou adulterar um chá, é melhor não pedir conselhos à lei.
Já a lei de crimes ambientais, muito em voga devido às tragédias provocadas por companhias exploradoras de petróleo ultimamente, me faz sentir um criminoso. Na verdade essa lei diz que a vida que milhares, e talvez milhões de brasileiros, levam é um castigo por ter praticado crime ambiental. Essa lei é de 1998 e traz, entre outras, a penalidade de recolhimento domiciliar para quem cometer infração considerada crime contra o meio ambiente, e diz o que é esse tal de "recolhimento domiciliar": O recolhimento domiciliar baseia-se na autodisciplina e senso de responsabilidade do condenado, que deverá, sem vigilância, trabalhar, freqüentar curso ou exercer atividade autorizada, permanecendo recolhido nos dias e horários de folga em residência ou em qualquer local destinado a sua moradia habitual, conforme estabelecido na sentença condenatória.
Como assim? autodisciplina é esperada de alguém que praticou crime. Senso de responsabilidade é esperado de quem praticou atos irresponsáveis. E a pena consiste no seguinte: trabalhar, ir para casa descansar e estudar. Identifiquei-me com essa pena, estou cumprindo-a já há muitos anos e creio que minha sentença foi perpétua. Franz Kafka, no século passado escreveu sobre isso em seu livro "o processo", mas no livro a pena do condenado foi a de ter a vida ceifada. No Brasil, hoje, a pena é mais cruel: recolhimento domiciliar até a morte.

domingo, 1 de abril de 2012

O inferno é fogo

Briga dos infernos, disputa dos diabos, discípulos do capeta. É impressionante como linguisticamente se pode atribuir significados tão apurados ao que acontece nas cúpulas de grandes (e ricas) denominações religiosas no Brasil, que , sob a égide da retórica eclesiástica, insistem em tentar subverter a semântica proclamando "somos soldados do bem, opositores do mal, seguidores do Salvador". Essa situação de guerra pelo poder entre Edir Macedo e Valdemiro Santiago, conforme noticiada nos canais de comunicação, traz à tona um fato que sempre esteve à tona: o mercado da fé.
Embora o povo brasileiro já tenha sido apontado por alguns escritores pela característica de ter memória fraca, felizmente hoje temos a internet para nos bombardear sem piedade com imagens de pastores da igreja universal achacando fiéis e de vez em quando somos até surpreendidos com declarações do próprio Edir sobre estratégias para arrebanhar mais "ovelhas".
Já sobre Valdemiro temos as denúncias e indícios apresentados pelo Ministério Público sobre seu envolvimento em crimes de naturezas diversas. Diversidade, aliás, é um dos métodos bastante usados por ambos nesse mercado.
Ao se analisar, contudo, os dois lados dessa moeda, pode-se verificar que ela não é composta por um lado bom e um ruim, como se esperaria normalmente. Ela tem um lado maldito e outro satânico. Lancemo-na ao fogo do desprezo e deixemo-la queimar eternamente para que o mercado da ignorância dê lugar ao mercado de qualquer outra coisa que tenha pelo menos um resquício de lado bom para se apoiar.

domingo, 25 de março de 2012

Chico Anysio Show is over.

Francisco de Paula, enquanto viveu, foi autor de muitas declarações polêmicas, tanto no âmbito público como no privado. Os noticiários dedicaram alguns preciosos minutos a homenagear o grande artista no dia de sua morte e uma notória atriz inclusive comentou: "ele nos deixou uma grande obra e foi um exemplo de pai amoroso". Será mesmo?
Muitos adultos hoje se recordam de ter assistido a seus programas na infância, dado risadas na adolescência e finalmente de discordar e concordar com alguns de seus bordões na maturidade. O comediante, em sua obra, ora tendia ao politicamente correto, ora sugeria ao grande público que nem sempre isso se adequava à realidade, pois a realidade nas décadas em que viveu e trabalhou não permaneceram imutáveis.
Já no seio de sua vida particular, embora a mídia não tenha tido muito interesse em enfatizá-la, Chico em suas confidências pôde concretizar o que era tão potencial profissionalmente: ser paradoxalmente bom e ruim; inteligente e ignorante; apaixonado e desinteressado. O mesmo boçal indiferente à ecologia manifestou-se contra interesses escusos do dono da Globo; o mesmo pai que chamou um de seus filhos de medíocre agradeceu ao carinho dos outros.
Geralmente quando alguma celebridade morre, todos costumam enaltecer o falecido declarando, repetidas vezes, características nobres inatacáveis como: amor, ternura, ponderação. Eu me lembrarei dele como alguém que xingou a própria família, mostrou a todos que nosso país não é tão belo quanto pensam e nosso povo não é tão digno de respeito, prejudicou e ofendeu injustamente (e também justamente) algumas pessoas, mas teve a capacidade de pedir perdão e admitir os grandes erros que cometeu.
Ninguém é perfeito. Chico Anysio aprendeu e ensinou-nos rindo a levar a vida a sério.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Segura peão!

Há algumas semanas, vi uma reportagem na TV sobre maus tratos a animais em rodeios e algumas medidas foram tomadas para que isso se atenue (que ótimo, agora os animais levam porradas com garrafa pet nas pontas dos porretes e são cutucados com esporas de pontas "arredondadas"). Um defensor dos rodeios no Brasil disse que eles devem continuar, pois é uma questão de tradição.
A escravidão, o desprezo por direitos iguais entre homens e mulheres, a ditadura e a ausência de democracia também já foram tradição no Brasil.

domingo, 15 de janeiro de 2012

não pode mijar

Essa semana o vídeo de soldados americanos no afeganistão urinando em corpos de soldados talibãs chocou as autoridades dos dois países, que se pronunciaram contra tal atitude. Não acho que urinar em cima de cadáveres seja um comportamento condizente com o que pessoas deveriam fazer para lutar contra o regime fundamentalista talibã, no entanto não entendo o pronunciamento das duas partes, uma se sentindo ofendida e a outra se sentindo surpresa.
No Brasil, de acordo com o código penal vigente, qualquer pessoa pode até esfaquear e atirar em cadáveres e isso não é considerado crime. Mas o fato de maior contrassenso na minha opinião foi o governo afegão se pronunciar culpando os Estados Unidos. Urinar foi humilhante, foi agressivo, foi ultrajante. Por outro lado, atirar com fuzil no peito dos filhotes de Bin Laden foi um ato legitimado pelo esforço de guerra. Ora, se alguém me der uma rajada de metralhadora e eu cair morto, não acho que vai mudar muita coisa se eu receber uma urinada logo após.
Ah sim, foi o caráter desrespeitoso do ato que deixou governantes e representantes do exército americano indignados. Acho isso um besteira sem tamanho.
A guerra é legítima, o uso de armas de fogo para combater o inimigo é imprescindível, mas todos devem respeitar o oponente e não urinar neles? É essa a lógica em jogo? Proponho o seguinte raciocínio: a guerra é suja, cruel, indigna, dispendiosa, inútil e CRIMINOSA. Já urinar em cadáveres é feio.

domingo, 8 de janeiro de 2012

responda.

Ninguém gosta de ditadura, tirania, autocracia. O sistema totalitário foi banido de praticamente todas as nações soberanas do ocidente e agora o estado democrático de direito é enaltecido e defendido democraticamente, deixando claro que o assunto "direitos humanos" deve ser colocado em pauta sempre que pertinente - e quando não é? - , e com respeito absoluto à dignidade da pessoa humana. A democracia foi uma conquista, e como tal deve ser mantida.
Até aqui só estou chovendo no molhado e enchendo linguiça, reclamariam alguns. E com toda razão. Mas fiz isso intencionalmente para mostrar que estamos acostumados a ver só um lado da moeda. Nem sempre temos tempo ou vontade de olhar a face oposta de algo que se apresenta tão sedutor, e nunca nos é apresentada essa possibilidade, pelo menos não nas letras de músicas hiper populares e programas de entretenimento com audiência recorde.
Não vou defender a ditadura nem o estado totalitário e aristocrata, mas às vezes parece que isso não acabou e, sim, evoluiu para um estágio onde a tirania foi exponencialmente aumentada e a violência substituída pela manipulação ideológica, causando muito mais destruição (tanto moral quanto física) e fazendo com que as próprias vítimas se sintam responsáveis pelos estragos.
No último ano cansei de ouvir que "o despótico ditador Muammar Gaddafi enfim foi retirado de seu reinado de maldade". Parece revoltante ficar sabendo que uma pessoa governou um país por 42 anos, não? Ainda bem que no Brasil temos a democracia, não é mesmo? Não, não. Quem somos nós para ficarmos com pena de um povo que foi obrigado a aceitar um líder governando seu país durante 42 anos? Nós não só estamos acostumados com as mesas figuras no poder, como inclusive os elegemos DEMOCRATICAMENTE. ACM esteve no poder legislativo e executivo aqui por mais de 50 anos e após falecer, seu filho e agora seu neto continuam o legado. Outras dezenas de parlamentares estão dividindo o congresso com Fernando Collor, Paulo Maluff e Jader Barbalho. Somemos quanto tempo cada um já vem exercendo poder tanto no legislativo quanto no executivo e teremos centenas de anos sob o jugo dos mesmos governantes. Contando todas as reeleições de políticos que deixam Gaddafi parecer uma criancinha em matéria de permanência no poder, chegaremos a milhares de anos.
Durante alguns anos manda Fulano, nos outros 4 ou 8 anos manda Cicrano, alternadamente assim podem se controlar e evitar abusos. Essa é a égide da democracia que deveria nos proteger. Mas na prática isso funciona como uma ditadura legitimada e apoiada pela vontade do povo.
Mas o Gaddafi mandava matar qualquer do povo que se manifestasse contra ele, choraminga o meu lado que ainda possui um resquício de senso-comum. Por sorte, meu lado que rejeita o senso-comum é mais forte e questiona: então mandar matar pessoas é melhor do que desviar bilhões de dólares para bancos em paraísos fiscais enquanto milhões vivem com renda inferior a 70 reais por mês, sem saneamento básico, educação, lazer, cultura em pleno século XXI? O senso-comum não responde, está ocupado ouvindo um breganejo ou assistindo ao jogo do timão.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Narciso invertido

Já disseram que o brasileiro é um Narciso invertido, que gosta de enfatizar os próprios defeitos em detrimento de suas qualidades. Onde estão essas pessoas? Será que estou considerando erroneamente alguma parcela da pirâmide social? Vamos lá: no topo, temos os empresários endinheirados e a classe política (governo e oposição). Eles acham que já aprenderam tudo que existe para se aprender e gostam de ensinar, e ensinam a ter orgulho de um país que cresceu um pouco, só um pouquinho do que poderia e deveria.
Mais abaixo temos a famosa classe média que não raro come presunto e arrota caviar, chamá-los de Narcisos invertidos seria comprometer totalmente a semântica das palavras envolvidas. Na base da pirâmide temos a população pobre, carente e, mais abaixo ainda, temos o que o governo do PT chama de "linha abaixo da pobreza". Viver com renda inferior a 70 reais não deixa muito espaço para ficar enfatizando retoricamente as qualidades e menosprezando os defeitos, e vice-versa.
Não existem Narcisos invertidos então? Nunca vi um. Não esse que delineiam em um retrato com traços distorcidos, que se sente bem em chafurdar no lodaçal da ignomínia e continuar descendo a ladeira da infelicidade rumo ao inferno na terra. Existem sim os que apontam para os defeitos alheios, ah esses existem e incomodam. Mas incomodam pouco, apontam pouco, haja vista que muitas vezes a hierarquia e a tradição política não propicia boas oportunidades para isso.
Alguns desses estão fazendo um tremendo barulho no oriente médio há pouco mais de 1 ano já, e vários deles já perderam a vida por isso. Estão dispostos a lutar e dar a vida em troca da liberdade e igualdade social que tanto almejam. Aqui no Brasil já houve um processo de democratização do estado, e alguns já perderam suas vidas por esse grande triunfo social.
Não há mais necessidade de fazer barulho então, alguns diriam; e muitos acreditam, outros esquecem. Cria-se aí a figura do Narciso invertido às avessas, que poderia muito bem ser considerado como o mesmo Narciso fraco de espírito imbuído de sérias deficiências de caráter desde a antiguidade. E observando com um olhar mais aprofundado, é isso mesmo.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Indignados ou indignos?

"Em nada a ajudam, é claro, sua inclinação a falar exatamente o que pensa e sua pouca paciência para adoçar o que fala." Essa frase foi usada por um jornalista para descrever a atual situação da corregedora Eliana Calmon perante magistrados e não magistrados mas interessados no jogo político que se engendra no conselho nacional de justiça, na revista veja dessa semana.
Existem algumas perspectivas distintas para se analisar a primeira frase do parágrafo acima: uma delas é avaliar a adequação semântica das palavras e rotular o tom da afirmação, outra maneira possível é tentar estabelecer uma relação entre as atitudes tomadas pela corregedora e o que foi descrito pelo jornalista. Vejamos então. O tom da afirmação é de denúncia. A relação entre o que Eliana Calmon disse e fez é pertinente em relação ao que foi descrito.
Pode parecer importante estabelecer essas relações de coerência entre o que foi dito e o que aconteceu, mas não é. O importante aqui, como em quase todo texto, é atentar para o conteúdo implícito nas entrelinhas e perceber que o problema nesse caso específico é o mesmo desde que Portugal estabeleceu aqui uma colônia.
A frase que abre o corrente texto explicita que Eliana Calmon fala o que pensa, e não distorce ou maquia suas palavras. Leve-se também em conta que ela está fazendo o que é paga para fazer. E tudo isso a está prejudicando. Quando se adentra em alguns estudos sobre o direito constitucional, administrativo e quando se nota que tanto neste como naquele permeiam aspectos sobre o poder judiciário, têm-se uma completa percepção de complexidade sobre o tema. Mas o que acontece aqui não é nada complexo: uma servidora pública está trabalhando e dizendo o que pensa - o que é obrigatório segundo a constituição, por ela representar o interesse público - e muita gente está se sentindo indignada por isso.
O poder judiciário tem o dever de julgar com imparcialidade, mas agora é motivo de indignação colocar isso em prática. Falar o que se pensa também parece não ajudar em nada; ou seja, a clareza, publicidade e exatidão exigidas do judiciário também não devem ser colocadas em prática para não suscitarem "indignação" de magistrados, inclusive de alguns da mais alta corte de nosso país.
Trabalhar com honestidade e se expressar sem mentir é algo que prejudica uma carreira, pensei que fosse o contrário. Mas Eliana nem foi tão agressiva assim, ela apenas citou os bandidos escondidos atrás da toga, deixando de lado os escondidos atrás da gravata. Mas estes nem ficariam indignados, já estão acostumados de serem acusados de corruptos. Apenas dariam boas risadas e depois mudariam para uma expressão de seriedade se perguntados sobre um comediante ter infligido o código penal fazendo uma piada de mal gosto sobre uma cantora brega. E agora? "Rir para não chorar" já deixou de ser ironia e não me avisaram?

domingo, 18 de dezembro de 2011

A verdade não existe, estou mentindo.

Entre o paraíso e o inferno. Entre deus e o diabo. Entre o bem e o mal. Entre o amor e o ódio. Durante muito tempo houve completa ausência de questionamento sobre o caráter unilateral da veracidade de frases de efeito como essas. Não mais.
"Nenhum direito é absoluto", ouve-se dos juristas. "Ninguém é dono da verdade", ouve-se do bêbado no bar. Mais importante do que simplesmente refletir sobre o significado de algumas frases tidas como inequívocas é estabelecer uma relação entre elas.
Nesse último ano as revoltas árabes têm colocado em voga a sede de alguns estados por democracia. No Brasil, desde a queda do regime militar têm-se glorificado o estado democrático de direito. Conviver com o desconhecido, aceitar diferenças e respeitar a dignidade da pessoa humana são mandamentos constitucionais que imperam nos discursos demagógicos e não demagógicos desde 1988, e desde que o Brasil começou a pleitear uma cadeira na ONU essa glorificação se intensificou.
Eis aonde quero chegar afinal: não existe hoje sequer uma ideia, por mais óbvia que seja, que não encontre oposição. Alguns poderiam argumentar: "Impossível alguém preferir o mal ao bem e conseguir defender tal propósito"; os satanistas estão aí para provar que é possível sim. Outros poderiam questionar: "Entre amor e ódio, temos que trabalhar para erradicar completamente o ódio", e encontrariam opositores ferrenhos sem precisar dobrar a esquina. "Joguemos as mãos para o alto em desespero e desistamos de achar pontos de convergência então" diria alguém menos propenso a raciocinar. Mas existe a dialética, hoje em dia não esquecida, mas usada de formas tão tênues e sutis que acabam mascarando-a de sorte que as vezes não conseguimos vê-la em alguma ideia e ao tentar aplicá-la onde ela já existia, acabamos por anulá-la por completo.
Vejamos um exemplo: dizer que violência gera violência ou dizer que um erro não justifica o outro. Ambas as frases são dignas de respeito, e são defendidas de acordo com a visão de que argumentos positivos para o convívio em sociedade as enaltecem e ao mesmo tempo servem para repudiar os negativos. Diante disso, alguns têm disseminado o ódio ao ódio, mas não o amor ao amor. Ser politicamente correto é ser brega, ser politicamente incorreto é ser "do contra" e "modista", estar em dúvida e fazer questionamentos é pregar o niilismo.
Lembro-me do filme "Operação Orquídea", em que alguns dissidentes do exército de Hitler queriam assassiná-lo, e o protagonista pergunta: "sim, e depois fazer o que?". Creio que hoje acontece algo parecido, devido ao grande número de informações a que somos expostos, principalmente pelos recursos da internet, de que dispomos cada vez mais, independentemente da classe social.
Não precisamos ser totalmente contra ou a favor de tudo que nos é oferecido e apresentado, nem é necessário bipolarizar todas as ideologias, basta entender (como diz FHC) que quando duas ideias diferentes se encontram, antes de refutar qualquer uma das duas, é preciso abrir espaço para o diálogo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Habitantes do Pará, têm piedade de nós!

No dia 11 de dezembro de 2011, a população do Pará irá participar do plebiscito sobre o desmembramento do estado em três partes. A constituição estabelece que somente os cidadão diretamente interessados têm o direito de votar. Acredito ser essa divisão de interesse de todo brasileiro, mas como o termo "diretamente" só é aplicado a quem reside no atual estado do Pará, os demais serão obrigados a assistir a esse plebiscito de braços cruzados.
A questão é polêmica, ou seja, argumentos contra e a favor são defendidos. Os argumentos a favor são todos parecidos com promessas de campanha política em véspera de eleições, o mais apelativo deles sendo o de que a divisão proporcionaria melhor atendimento às comunidades carentes que vêm sofrendo com falta de necessidades básicas como saneamento, saúde e educação. O que há de concreto e verificável nessa ideia? Nada, ela é bonita e sedutora, assim como foram as promessas de campanha de quem foi eleito se comprometendo a acabar com os mesmos problemas.
E o que poderiam os muitos "indiretamente interessados" alegar para não apoiar a criação de mais 2 novos estados, promessas de que sem o desmembramento a miséria da população carente diminuirá? Mais do que sedutor, eis um argumento verificável, técnico, tangível, claro e inegável: mais dinheiro sairá do bolso do contribuinte brasileiro residente em qualquer estado, e sem nenhuma garantia de que tal pagamento compulsório será bem aplicado, exceto por promessas que ouvimos há séculos (daqui a 6 anos José Sarney completará meio século de promessas não cumpridas, para se ter uma ideia).
O congresso nacional é composto por 513 deputados federais e 81 senadores. São 594 legisladores muito bem pagos para exercer funções típicas (legislar = fazer leis) e atípicas (fiscalizar os gastos do poder executivo). Cada um desses 594 excelentes (oficialmente eles são reconhecidos pelo pronome de tratamento de Vossa Excelência, até o Tiririca) tem direito de nomear mais algumas pessoas, cujos salários sairão do bolso do contribuinte. Cada excelente tem também direito a muito mais prerrogativas que qualquer um do povo não tem, como plano de saúde especial, imunidade parlamentar etc... Mas alguns podem se perguntar por que estou inserindo esses dados, e a resposta é óbvia: a criação dos estados de Tapajós e Carajás irá aumentar também o número dessas criaturas excelentes, com todas essas prerrogativas que lhe são conferidas: 8 deputados federais e 3 senadores. Some-se a isso os mais de vinte deputados estaduais, 2 governadores, 2 prefeitos, vereadores e toda a estrutura para albergar toda essa excelente cambada. Sem levar em consideração eventuais desvios de verbas, isso custará milhões de reais mensais.
Criar mais dois estados é como aumentar a conta da contribuição sem gerar receita. É como dar dinheiro a quem não precisa, achando que tal verba seria aplicada em programas em benefício de quem realmente necessita. Se a administração no Brasil é ineficiente, aumentar o número de administradores em vez de melhorar a atuação dos mesmos não faz nenhum sentido. Assistamos então ao plebiscito e vejamos se os "diretamente interessados" preferem fazer valer à excelência de seu voto o poder de veto aos aspirantes ao título de excelência ou dar-lhes tal condição e mandar a conta para o resto do país dividir.

domingo, 27 de novembro de 2011

Brick by brick, BRIC bye BRIC

A taxa crescente na economia dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e Coreia) tem sido motivo de orgulho, e a taxa decrescente na economia dos países ricos tem sido motivo de tormento. Isso em linhas gerais, pois economistas como Maílson da Nóbrega andam torcendo o nariz (a maioria não tem mais cabelos para arrancar) em relação à volta da inflação no Brasil. O presidente do Banco Central diz que a inflação acima da meta fixada para o ano de 2011 já era esperada e que ela será alcançada em 2012.
Tombini já trabalhou no FMI, tem uma grande experiência em se tratando de economia, foi indicado pela presidente Dilma de acordo com a meritocracia, o que é de se orgulhar levando em conta as tradições políticas brasileiras, mas o que mais chama a atenção na declaração acima é a retórica.
Ver o ministro do trabalho Carlos Lupi esbravejando e mentindo descaradamente quando pergunta "como é mesmo o nome dele?" não causa nenhuma confusão sobre o fato de Lupi ser péssimo ator e político brasileiro, basta imaginar no absurdo que seria alguém se perguntando "qual é mesmo a cor do café preto?", mas é preciso ser um pouco mais atento ao se deparar com frases como a de Tombini sobre a a meta da inflação de 2011. Vejamos: se a meta do índice inflacionário para esse ano era de 4.5%, e se era sabido que esse número seria ultrapassado, então para que estabelecer um número menor do que se espera? É como dizer: "vou parar de fumar ano que vem", e no ano que vem dizer: "já era esperado que eu não cumpriria a promessa".
Essa velha retórica antiga já é velha e antiga, por isso não costuma pegar desprevenido quem as ouve com atenção. A novidade que tem animado milhões de pessoas com renda acima de 70 reais por mês - e por isso acima da linha da miséria - são os números. Quando Sarney era presidente, dizia-se que a inflação ia ser controlada, e passava de 30% ao mês. Hoje se diz que ela vai ficar em 4.5% ao ano, e quase chega aos 7%. Os números sobre os BRICs ensejam esperança; os sobre as potências desenvolvidas, revolta (para eles, não para nós). Acima dos países pobres, dos ricos e dos emergentes está um instrumento que deflagra desigualdades em massa em qualquer lugar: a crise financeira mundial que tem em seu núcleo as instituições financeiras privadas. Portanto, os números sempre aumentam e diminuem. Talvez Maílson da Nóbrega tenha razão, talvez não.

domingo, 20 de novembro de 2011

Nem foi preso, Nem é criminoso

Ocupação da Rocinha. Prisão do traficante "Nem". Essas duas notícias fizeram muitos se sentirem orgulhosos ao lê-las ou ouvi-las durante a semana. Mas apesar de não ter uma ótima memória, recordo-me de há cerca de uns 7 meses ter assistido a incessantes noticiários sobre ocupação das favelas no Rio. Não esqueço também os elogios que essas operações de pacificação dos morros receberam de quem as acompanhou, monitorou, arquitetou e até de quem mal sabia o que estava acontecendo e eventualmente também demonstrou sua opinião positiva.
Ninguém negou que foi uma atuação válida e produtiva contra o crime organizado nas favelas do Rio. Ninguém, a não ser os "T.H.S" - Traficantes, homicidas e simpatizantes. Não sou T.H.S, tampouco vejo motivos para criticar uma ação pacificadora em regiões já caracterizadas tradicionalmente pela violência. Mas o Brasil é um país tragicamente cômico, aqui não se diz que não se deve procurar pelo em ovo, mas sim que os ovos não existem, ou então, no máximo, que isso faz parte da cultura brasileira.
A Rocinha finalmente foi ocupada e o traficante "Nem" foi preso. Acho isso positivo, mas inevitavelmente levanto algumas questões: 1- Como puderam elogiar tanto as ocupações das favelas do Rio no mês de março e esquecer de uma com 200 mil habitantes? 2- Nessas operações, dezenas de armas foram apreendidas pela polícia e pelo exército, mas TODO esse armamento não foi conseguido pelos traficantes diretamente através da própria polícia e do próprio exército? 3- O traficante "Nem" era o ditador da Rocinha, mas por que então - excetuando-se os que viviam sobe seu regime ditatorial - o resto da população brasileira mal sabia de sua existência?
Provavelmente mais ocupações acontecerão. E sem deixar no esquecimento a metáfora do pelo em ovo, acredito pertinente aqui apontar mais uma: a de espalhar a doença para depois vender a cura. Acho que acompanhar os noticiários tem me feito rejuvenescer, ou então chegar à conclusão de que as crianças entendem mais de política do que os adultos. Afinal, a seguinte questão não seria digna de uma criança? "Por que tanto empenho em combater o crime apenas, não seria bom também algum esforço para preveni-lo?".

domingo, 13 de novembro de 2011

Somos cães esperando o dono

Há 4.5 bilhões de anos não existia planeta terra. Há centenas de milhares de anos não existia a raça humana. Quantos milhares de anos? Não polemizemos a questão, a intenção não é essa. Chutemos por baixo então, dizendo que há cerca de 150 mil anos não existia a raça humana.
Das cavernas à era espacial houve um imenso progresso, e nos últimos 100 anos a humanidade progrediu mais do que nos últimos 1000 anos. Mas progrediu em que? Tecnologia? Sim, tecnologicamente houve um progresso inegável entre a invenção da geladeira e o armazenamento de dados nas nuvens. A medicina também deu um grande salto, assim como outras áreas acadêmicas, como a psicologia, que há pouco mais de um século nem existia e era estudada junto com a filosofia. Mas o cérebro humano não evoluiu tanto assim nos últimos milênios. A ideia de que hoje somos mais inteligentes do que antigamente é um grande equívoco, se isso fosse verdade qualquer pessoa hoje em dia, seja jogador de futebol ou cantor (cantor?) de funk seria mais inteligente do que Platão, Aristóteles, Sócrates, Tales de Mileto e muitos outros que viveram há mais de 2000 anos. Não se pode nem dizer que o ex-presidente Lula é mais inteligente do que algum senador da Roma antiga, excetuando-se o cavalo nomeado senador por Calígula. Bom, há quem diga que nem isso...
Desde a antiguidade clássica na Grécia (500 AC), na verdade nada mudou. Paramos no tempo. São 2500 anos de pura teimosia e a cada dia que passa o número de teimosos aumenta, hoje já são mais de 7 bilhões. E esse número tão elevado de animais racionais teima em que, afinal? Em não concordar com alguns e concordar com outros. Em acreditar que há alguém que sabe a resposta de todas as perguntas. Em insistir e achar que dizer "eu não sei" é um sinal de fraqueza. Obviamente nem todos são tão teimosos, alguns são menos.
Essa capacidade de abstração que nos difere tão visivelmente das outras espécies está sendo pouco usada, ou não está sendo usada tanto quanto poderia. Nossa capacidade de raciocinar nos permite duvidar de tudo, e eventualmente do que acreditamos ser verdade, mas praticamente ninguém exerce esse direito de duvidar do que sabe, ou pensa que sabe. Exemplificando: o cachorro daquela história que virou filme ia buscar o dono todos os dias na estação de trem, e quando seu dono morreu ele continuou esperando-o até morrer também, de velhice. O cachorro não é teimoso, ele apenas não tem capacidade de raciocinar e chegar à conclusão de que seu querido dono não mais está entre os outros seres viventes.
Nós humanos temos capacidade para raciocinar, mas continuamos esperando muitas coisas que não retornarão e também acreditando em muitas coisas de que já deveríamos ao menos estar duvidando.

domingo, 30 de outubro de 2011

Nova moda

O Brasil sempre foi adepto incondicional a modismos estrangeiros. Desde os tempos do Brasil Colônia isso acontece. Por que as mulheres usavam vestidos longos e os homens terno, gravata e cartola debaixo do sol escaldante no verão brasileiro em regiões como Nordeste e Sudeste? Por causa da moda. E tem sido assim até os dias atuais, sempre seguimos a moda que vem de fora.
Seguir uma moda (ou tendência, para aqueles que preferem usar um eufemismo) não parece ser um hábito negativo, desde que sirva a algum propósito positivo. Retornemos às origens de nosso País: copiar a indumentária européia, que no inverno de lá servia para manter o corpo aquecido, serviu-nos para quê? Ora, para uma boa estética das classes sociais mais altas da época, que aliás não contava com aparelhos condicionadores de ar elétricos.
Em 1988 nossos legisladores editaram a tão famosa Constituição da República, a "Constituição Cidadã". Ela foi elaborada nos moldes da constituição dos Estados Unidos. Copiamos os americanos. O que há de errado nisso? Nada, a constituição norte-americana tem mais de 200 anos, poucos artigos e sofreu pouquíssimas emendas até então. E o produto de termos seguido essa "tendência"? Mais de 250 artigos, numa linguagem que o povo brasileiro não consegue entender, incontáveis emendas, contradições e até um artigo dizendo que um colégio no estado do Rio de Janeiro pertencerá sempre ao âmbito federal. Sim, na Carta Magna que é considerada acima de qualquer lei que existe em nosso País, existe um artigo tratando de um assunto ridículo como esse, um colégio que eternamente o legislador quis que ficasse sob a tutela da União, e não de qualquer estado-membro. Inserir isso no texto constitucional foi seguir alguma "tendência"? Não, nisso o legislador brasileiro foi original.
Enfim, tentamos seguir modas e as distorcemos, mas tentamos. Tentamos ser originais e só fazemos besteira, mas nos esforçamos. Ah, mas estou sendo injusto, já copiamos muitas modas e até as aperfeiçoamos, vale dizer: as modas inúteis, como a do rebelde sem causa dos anos 50. A moda agora no exterior é fazer protesto contra a corrupção e ocupar praças públicas, com seriedade e sem prazo de desocupação. Parece que, infelizmente num momento como esse, o povo brasileiro não quer mais copiar o que vem de fora e resolveu copiar o que nós mesmos produzimos - ou pensamos produzir - : é só andar pelas ruas e não veremos ninguém ocupando praças públicas e protestando contra a ganância dos investidores que controlam a economia, mas estão copiando muito bem o corte de cabelo de um jogador de futebol (que o copiou dos índios americanos).

domingo, 23 de outubro de 2011

Ter fé é preciso, ter fé não é preciso.

O Sr. Roberto Pompeu de Toledo, em artigo publicado pela revista veja desta semana, delineou de forma clara e concisa - e assim, logicamente, de maneira não ortodoxa - o tratamento que o Brasil dá ao tema que, considerado sagrado, traz nesse adjetivo já uma conotação que deixa claro a tendência criticada pelo autor do artigo: religião.
Os dispositivos constitucionais indicados pelo colunista evidenciam uma disparidade indisfarçável em relação a subsídios, subvenções e outras vantagens destinadas a cultos religiosos ou igrejas e a "escolas confessionais". Ah sim, qualquer cristão atento me acusaria de estar agindo de maneira discriminatória sugerindo que tais "escolas confessionais" são de natureza católica, e talvez algumas protestantes. E eles realmente estariam com a razão, se realmente existissem escolas confessionais de natureza budista, umbandista, taoísta, confucionista etc agraciadas com verba pública. Existe alguma, pelo menos uma no Brasil?
Pompeu de Toledo não comentou (talvez por falta de espaço) uma parte bem extensa da Constituição da República que é considerada cláusula pétrea (e que não pode ser objeto de emenda):o artigo 5º. O legislador constituinte fez questão de inserir 3 incisos nesse artigo para estabelecer garantias a quem quiser exercer livremente qualquer culto ou liturgia, e garante também que tal proteção será feita na forma da lei. Desconheço que lei é essa, se existir. Mas caso não exista, torço para que nossos legisladores (Tiririca, Romário, Popó, entre outros)se esforcem em editar outras leis, como por exemplo a lei que regulamenta o direito de greve dos servidores públicos, que está esperando para ser editada há 22 anos e os ocupadíssimos deputados e senadores ainda não tiveram tempo para redigí-la.
Há tambem outros temas a serem tratados na constituição, como por exemplo o direito à educação, ALIMENTAÇÃO e moradia; e se não obtiverem o adjetivo de "sagrados" levando-se em conta o tratamento que lhes é dispensado, torçamos para que ao menos obtenha o de "importante".