Essa semana o vídeo de soldados americanos no afeganistão urinando em corpos de soldados talibãs chocou as autoridades dos dois países, que se pronunciaram contra tal atitude. Não acho que urinar em cima de cadáveres seja um comportamento condizente com o que pessoas deveriam fazer para lutar contra o regime fundamentalista talibã, no entanto não entendo o pronunciamento das duas partes, uma se sentindo ofendida e a outra se sentindo surpresa.
No Brasil, de acordo com o código penal vigente, qualquer pessoa pode até esfaquear e atirar em cadáveres e isso não é considerado crime. Mas o fato de maior contrassenso na minha opinião foi o governo afegão se pronunciar culpando os Estados Unidos. Urinar foi humilhante, foi agressivo, foi ultrajante. Por outro lado, atirar com fuzil no peito dos filhotes de Bin Laden foi um ato legitimado pelo esforço de guerra. Ora, se alguém me der uma rajada de metralhadora e eu cair morto, não acho que vai mudar muita coisa se eu receber uma urinada logo após.
Ah sim, foi o caráter desrespeitoso do ato que deixou governantes e representantes do exército americano indignados. Acho isso um besteira sem tamanho.
A guerra é legítima, o uso de armas de fogo para combater o inimigo é imprescindível, mas todos devem respeitar o oponente e não urinar neles? É essa a lógica em jogo? Proponho o seguinte raciocínio: a guerra é suja, cruel, indigna, dispendiosa, inútil e CRIMINOSA. Já urinar em cadáveres é feio.
domingo, 15 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
responda.
Ninguém gosta de ditadura, tirania, autocracia. O sistema totalitário foi banido de praticamente todas as nações soberanas do ocidente e agora o estado democrático de direito é enaltecido e defendido democraticamente, deixando claro que o assunto "direitos humanos" deve ser colocado em pauta sempre que pertinente - e quando não é? - , e com respeito absoluto à dignidade da pessoa humana. A democracia foi uma conquista, e como tal deve ser mantida.
Até aqui só estou chovendo no molhado e enchendo linguiça, reclamariam alguns. E com toda razão. Mas fiz isso intencionalmente para mostrar que estamos acostumados a ver só um lado da moeda. Nem sempre temos tempo ou vontade de olhar a face oposta de algo que se apresenta tão sedutor, e nunca nos é apresentada essa possibilidade, pelo menos não nas letras de músicas hiper populares e programas de entretenimento com audiência recorde.
Não vou defender a ditadura nem o estado totalitário e aristocrata, mas às vezes parece que isso não acabou e, sim, evoluiu para um estágio onde a tirania foi exponencialmente aumentada e a violência substituída pela manipulação ideológica, causando muito mais destruição (tanto moral quanto física) e fazendo com que as próprias vítimas se sintam responsáveis pelos estragos.
No último ano cansei de ouvir que "o despótico ditador Muammar Gaddafi enfim foi retirado de seu reinado de maldade". Parece revoltante ficar sabendo que uma pessoa governou um país por 42 anos, não? Ainda bem que no Brasil temos a democracia, não é mesmo? Não, não. Quem somos nós para ficarmos com pena de um povo que foi obrigado a aceitar um líder governando seu país durante 42 anos? Nós não só estamos acostumados com as mesas figuras no poder, como inclusive os elegemos DEMOCRATICAMENTE. ACM esteve no poder legislativo e executivo aqui por mais de 50 anos e após falecer, seu filho e agora seu neto continuam o legado. Outras dezenas de parlamentares estão dividindo o congresso com Fernando Collor, Paulo Maluff e Jader Barbalho. Somemos quanto tempo cada um já vem exercendo poder tanto no legislativo quanto no executivo e teremos centenas de anos sob o jugo dos mesmos governantes. Contando todas as reeleições de políticos que deixam Gaddafi parecer uma criancinha em matéria de permanência no poder, chegaremos a milhares de anos.
Durante alguns anos manda Fulano, nos outros 4 ou 8 anos manda Cicrano, alternadamente assim podem se controlar e evitar abusos. Essa é a égide da democracia que deveria nos proteger. Mas na prática isso funciona como uma ditadura legitimada e apoiada pela vontade do povo.
Mas o Gaddafi mandava matar qualquer do povo que se manifestasse contra ele, choraminga o meu lado que ainda possui um resquício de senso-comum. Por sorte, meu lado que rejeita o senso-comum é mais forte e questiona: então mandar matar pessoas é melhor do que desviar bilhões de dólares para bancos em paraísos fiscais enquanto milhões vivem com renda inferior a 70 reais por mês, sem saneamento básico, educação, lazer, cultura em pleno século XXI? O senso-comum não responde, está ocupado ouvindo um breganejo ou assistindo ao jogo do timão.
Até aqui só estou chovendo no molhado e enchendo linguiça, reclamariam alguns. E com toda razão. Mas fiz isso intencionalmente para mostrar que estamos acostumados a ver só um lado da moeda. Nem sempre temos tempo ou vontade de olhar a face oposta de algo que se apresenta tão sedutor, e nunca nos é apresentada essa possibilidade, pelo menos não nas letras de músicas hiper populares e programas de entretenimento com audiência recorde.
Não vou defender a ditadura nem o estado totalitário e aristocrata, mas às vezes parece que isso não acabou e, sim, evoluiu para um estágio onde a tirania foi exponencialmente aumentada e a violência substituída pela manipulação ideológica, causando muito mais destruição (tanto moral quanto física) e fazendo com que as próprias vítimas se sintam responsáveis pelos estragos.
No último ano cansei de ouvir que "o despótico ditador Muammar Gaddafi enfim foi retirado de seu reinado de maldade". Parece revoltante ficar sabendo que uma pessoa governou um país por 42 anos, não? Ainda bem que no Brasil temos a democracia, não é mesmo? Não, não. Quem somos nós para ficarmos com pena de um povo que foi obrigado a aceitar um líder governando seu país durante 42 anos? Nós não só estamos acostumados com as mesas figuras no poder, como inclusive os elegemos DEMOCRATICAMENTE. ACM esteve no poder legislativo e executivo aqui por mais de 50 anos e após falecer, seu filho e agora seu neto continuam o legado. Outras dezenas de parlamentares estão dividindo o congresso com Fernando Collor, Paulo Maluff e Jader Barbalho. Somemos quanto tempo cada um já vem exercendo poder tanto no legislativo quanto no executivo e teremos centenas de anos sob o jugo dos mesmos governantes. Contando todas as reeleições de políticos que deixam Gaddafi parecer uma criancinha em matéria de permanência no poder, chegaremos a milhares de anos.
Durante alguns anos manda Fulano, nos outros 4 ou 8 anos manda Cicrano, alternadamente assim podem se controlar e evitar abusos. Essa é a égide da democracia que deveria nos proteger. Mas na prática isso funciona como uma ditadura legitimada e apoiada pela vontade do povo.
Mas o Gaddafi mandava matar qualquer do povo que se manifestasse contra ele, choraminga o meu lado que ainda possui um resquício de senso-comum. Por sorte, meu lado que rejeita o senso-comum é mais forte e questiona: então mandar matar pessoas é melhor do que desviar bilhões de dólares para bancos em paraísos fiscais enquanto milhões vivem com renda inferior a 70 reais por mês, sem saneamento básico, educação, lazer, cultura em pleno século XXI? O senso-comum não responde, está ocupado ouvindo um breganejo ou assistindo ao jogo do timão.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Narciso invertido
Já disseram que o brasileiro é um Narciso invertido, que gosta de enfatizar os próprios defeitos em detrimento de suas qualidades. Onde estão essas pessoas? Será que estou considerando erroneamente alguma parcela da pirâmide social? Vamos lá: no topo, temos os empresários endinheirados e a classe política (governo e oposição). Eles acham que já aprenderam tudo que existe para se aprender e gostam de ensinar, e ensinam a ter orgulho de um país que cresceu um pouco, só um pouquinho do que poderia e deveria.
Mais abaixo temos a famosa classe média que não raro come presunto e arrota caviar, chamá-los de Narcisos invertidos seria comprometer totalmente a semântica das palavras envolvidas. Na base da pirâmide temos a população pobre, carente e, mais abaixo ainda, temos o que o governo do PT chama de "linha abaixo da pobreza". Viver com renda inferior a 70 reais não deixa muito espaço para ficar enfatizando retoricamente as qualidades e menosprezando os defeitos, e vice-versa.
Não existem Narcisos invertidos então? Nunca vi um. Não esse que delineiam em um retrato com traços distorcidos, que se sente bem em chafurdar no lodaçal da ignomínia e continuar descendo a ladeira da infelicidade rumo ao inferno na terra. Existem sim os que apontam para os defeitos alheios, ah esses existem e incomodam. Mas incomodam pouco, apontam pouco, haja vista que muitas vezes a hierarquia e a tradição política não propicia boas oportunidades para isso.
Alguns desses estão fazendo um tremendo barulho no oriente médio há pouco mais de 1 ano já, e vários deles já perderam a vida por isso. Estão dispostos a lutar e dar a vida em troca da liberdade e igualdade social que tanto almejam. Aqui no Brasil já houve um processo de democratização do estado, e alguns já perderam suas vidas por esse grande triunfo social.
Não há mais necessidade de fazer barulho então, alguns diriam; e muitos acreditam, outros esquecem. Cria-se aí a figura do Narciso invertido às avessas, que poderia muito bem ser considerado como o mesmo Narciso fraco de espírito imbuído de sérias deficiências de caráter desde a antiguidade. E observando com um olhar mais aprofundado, é isso mesmo.
Mais abaixo temos a famosa classe média que não raro come presunto e arrota caviar, chamá-los de Narcisos invertidos seria comprometer totalmente a semântica das palavras envolvidas. Na base da pirâmide temos a população pobre, carente e, mais abaixo ainda, temos o que o governo do PT chama de "linha abaixo da pobreza". Viver com renda inferior a 70 reais não deixa muito espaço para ficar enfatizando retoricamente as qualidades e menosprezando os defeitos, e vice-versa.
Não existem Narcisos invertidos então? Nunca vi um. Não esse que delineiam em um retrato com traços distorcidos, que se sente bem em chafurdar no lodaçal da ignomínia e continuar descendo a ladeira da infelicidade rumo ao inferno na terra. Existem sim os que apontam para os defeitos alheios, ah esses existem e incomodam. Mas incomodam pouco, apontam pouco, haja vista que muitas vezes a hierarquia e a tradição política não propicia boas oportunidades para isso.
Alguns desses estão fazendo um tremendo barulho no oriente médio há pouco mais de 1 ano já, e vários deles já perderam a vida por isso. Estão dispostos a lutar e dar a vida em troca da liberdade e igualdade social que tanto almejam. Aqui no Brasil já houve um processo de democratização do estado, e alguns já perderam suas vidas por esse grande triunfo social.
Não há mais necessidade de fazer barulho então, alguns diriam; e muitos acreditam, outros esquecem. Cria-se aí a figura do Narciso invertido às avessas, que poderia muito bem ser considerado como o mesmo Narciso fraco de espírito imbuído de sérias deficiências de caráter desde a antiguidade. E observando com um olhar mais aprofundado, é isso mesmo.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Indignados ou indignos?
"Em nada a ajudam, é claro, sua inclinação a falar exatamente o que pensa e sua pouca paciência para adoçar o que fala." Essa frase foi usada por um jornalista para descrever a atual situação da corregedora Eliana Calmon perante magistrados e não magistrados mas interessados no jogo político que se engendra no conselho nacional de justiça, na revista veja dessa semana.
Existem algumas perspectivas distintas para se analisar a primeira frase do parágrafo acima: uma delas é avaliar a adequação semântica das palavras e rotular o tom da afirmação, outra maneira possível é tentar estabelecer uma relação entre as atitudes tomadas pela corregedora e o que foi descrito pelo jornalista. Vejamos então. O tom da afirmação é de denúncia. A relação entre o que Eliana Calmon disse e fez é pertinente em relação ao que foi descrito.
Pode parecer importante estabelecer essas relações de coerência entre o que foi dito e o que aconteceu, mas não é. O importante aqui, como em quase todo texto, é atentar para o conteúdo implícito nas entrelinhas e perceber que o problema nesse caso específico é o mesmo desde que Portugal estabeleceu aqui uma colônia.
A frase que abre o corrente texto explicita que Eliana Calmon fala o que pensa, e não distorce ou maquia suas palavras. Leve-se também em conta que ela está fazendo o que é paga para fazer. E tudo isso a está prejudicando. Quando se adentra em alguns estudos sobre o direito constitucional, administrativo e quando se nota que tanto neste como naquele permeiam aspectos sobre o poder judiciário, têm-se uma completa percepção de complexidade sobre o tema. Mas o que acontece aqui não é nada complexo: uma servidora pública está trabalhando e dizendo o que pensa - o que é obrigatório segundo a constituição, por ela representar o interesse público - e muita gente está se sentindo indignada por isso.
O poder judiciário tem o dever de julgar com imparcialidade, mas agora é motivo de indignação colocar isso em prática. Falar o que se pensa também parece não ajudar em nada; ou seja, a clareza, publicidade e exatidão exigidas do judiciário também não devem ser colocadas em prática para não suscitarem "indignação" de magistrados, inclusive de alguns da mais alta corte de nosso país.
Trabalhar com honestidade e se expressar sem mentir é algo que prejudica uma carreira, pensei que fosse o contrário. Mas Eliana nem foi tão agressiva assim, ela apenas citou os bandidos escondidos atrás da toga, deixando de lado os escondidos atrás da gravata. Mas estes nem ficariam indignados, já estão acostumados de serem acusados de corruptos. Apenas dariam boas risadas e depois mudariam para uma expressão de seriedade se perguntados sobre um comediante ter infligido o código penal fazendo uma piada de mal gosto sobre uma cantora brega. E agora? "Rir para não chorar" já deixou de ser ironia e não me avisaram?
Existem algumas perspectivas distintas para se analisar a primeira frase do parágrafo acima: uma delas é avaliar a adequação semântica das palavras e rotular o tom da afirmação, outra maneira possível é tentar estabelecer uma relação entre as atitudes tomadas pela corregedora e o que foi descrito pelo jornalista. Vejamos então. O tom da afirmação é de denúncia. A relação entre o que Eliana Calmon disse e fez é pertinente em relação ao que foi descrito.
Pode parecer importante estabelecer essas relações de coerência entre o que foi dito e o que aconteceu, mas não é. O importante aqui, como em quase todo texto, é atentar para o conteúdo implícito nas entrelinhas e perceber que o problema nesse caso específico é o mesmo desde que Portugal estabeleceu aqui uma colônia.
A frase que abre o corrente texto explicita que Eliana Calmon fala o que pensa, e não distorce ou maquia suas palavras. Leve-se também em conta que ela está fazendo o que é paga para fazer. E tudo isso a está prejudicando. Quando se adentra em alguns estudos sobre o direito constitucional, administrativo e quando se nota que tanto neste como naquele permeiam aspectos sobre o poder judiciário, têm-se uma completa percepção de complexidade sobre o tema. Mas o que acontece aqui não é nada complexo: uma servidora pública está trabalhando e dizendo o que pensa - o que é obrigatório segundo a constituição, por ela representar o interesse público - e muita gente está se sentindo indignada por isso.
O poder judiciário tem o dever de julgar com imparcialidade, mas agora é motivo de indignação colocar isso em prática. Falar o que se pensa também parece não ajudar em nada; ou seja, a clareza, publicidade e exatidão exigidas do judiciário também não devem ser colocadas em prática para não suscitarem "indignação" de magistrados, inclusive de alguns da mais alta corte de nosso país.
Trabalhar com honestidade e se expressar sem mentir é algo que prejudica uma carreira, pensei que fosse o contrário. Mas Eliana nem foi tão agressiva assim, ela apenas citou os bandidos escondidos atrás da toga, deixando de lado os escondidos atrás da gravata. Mas estes nem ficariam indignados, já estão acostumados de serem acusados de corruptos. Apenas dariam boas risadas e depois mudariam para uma expressão de seriedade se perguntados sobre um comediante ter infligido o código penal fazendo uma piada de mal gosto sobre uma cantora brega. E agora? "Rir para não chorar" já deixou de ser ironia e não me avisaram?
domingo, 18 de dezembro de 2011
A verdade não existe, estou mentindo.
Entre o paraíso e o inferno. Entre deus e o diabo. Entre o bem e o mal. Entre o amor e o ódio. Durante muito tempo houve completa ausência de questionamento sobre o caráter unilateral da veracidade de frases de efeito como essas. Não mais.
"Nenhum direito é absoluto", ouve-se dos juristas. "Ninguém é dono da verdade", ouve-se do bêbado no bar. Mais importante do que simplesmente refletir sobre o significado de algumas frases tidas como inequívocas é estabelecer uma relação entre elas.
Nesse último ano as revoltas árabes têm colocado em voga a sede de alguns estados por democracia. No Brasil, desde a queda do regime militar têm-se glorificado o estado democrático de direito. Conviver com o desconhecido, aceitar diferenças e respeitar a dignidade da pessoa humana são mandamentos constitucionais que imperam nos discursos demagógicos e não demagógicos desde 1988, e desde que o Brasil começou a pleitear uma cadeira na ONU essa glorificação se intensificou.
Eis aonde quero chegar afinal: não existe hoje sequer uma ideia, por mais óbvia que seja, que não encontre oposição. Alguns poderiam argumentar: "Impossível alguém preferir o mal ao bem e conseguir defender tal propósito"; os satanistas estão aí para provar que é possível sim. Outros poderiam questionar: "Entre amor e ódio, temos que trabalhar para erradicar completamente o ódio", e encontrariam opositores ferrenhos sem precisar dobrar a esquina. "Joguemos as mãos para o alto em desespero e desistamos de achar pontos de convergência então" diria alguém menos propenso a raciocinar. Mas existe a dialética, hoje em dia não esquecida, mas usada de formas tão tênues e sutis que acabam mascarando-a de sorte que as vezes não conseguimos vê-la em alguma ideia e ao tentar aplicá-la onde ela já existia, acabamos por anulá-la por completo.
Vejamos um exemplo: dizer que violência gera violência ou dizer que um erro não justifica o outro. Ambas as frases são dignas de respeito, e são defendidas de acordo com a visão de que argumentos positivos para o convívio em sociedade as enaltecem e ao mesmo tempo servem para repudiar os negativos. Diante disso, alguns têm disseminado o ódio ao ódio, mas não o amor ao amor. Ser politicamente correto é ser brega, ser politicamente incorreto é ser "do contra" e "modista", estar em dúvida e fazer questionamentos é pregar o niilismo.
Lembro-me do filme "Operação Orquídea", em que alguns dissidentes do exército de Hitler queriam assassiná-lo, e o protagonista pergunta: "sim, e depois fazer o que?". Creio que hoje acontece algo parecido, devido ao grande número de informações a que somos expostos, principalmente pelos recursos da internet, de que dispomos cada vez mais, independentemente da classe social.
Não precisamos ser totalmente contra ou a favor de tudo que nos é oferecido e apresentado, nem é necessário bipolarizar todas as ideologias, basta entender (como diz FHC) que quando duas ideias diferentes se encontram, antes de refutar qualquer uma das duas, é preciso abrir espaço para o diálogo.
"Nenhum direito é absoluto", ouve-se dos juristas. "Ninguém é dono da verdade", ouve-se do bêbado no bar. Mais importante do que simplesmente refletir sobre o significado de algumas frases tidas como inequívocas é estabelecer uma relação entre elas.
Nesse último ano as revoltas árabes têm colocado em voga a sede de alguns estados por democracia. No Brasil, desde a queda do regime militar têm-se glorificado o estado democrático de direito. Conviver com o desconhecido, aceitar diferenças e respeitar a dignidade da pessoa humana são mandamentos constitucionais que imperam nos discursos demagógicos e não demagógicos desde 1988, e desde que o Brasil começou a pleitear uma cadeira na ONU essa glorificação se intensificou.
Eis aonde quero chegar afinal: não existe hoje sequer uma ideia, por mais óbvia que seja, que não encontre oposição. Alguns poderiam argumentar: "Impossível alguém preferir o mal ao bem e conseguir defender tal propósito"; os satanistas estão aí para provar que é possível sim. Outros poderiam questionar: "Entre amor e ódio, temos que trabalhar para erradicar completamente o ódio", e encontrariam opositores ferrenhos sem precisar dobrar a esquina. "Joguemos as mãos para o alto em desespero e desistamos de achar pontos de convergência então" diria alguém menos propenso a raciocinar. Mas existe a dialética, hoje em dia não esquecida, mas usada de formas tão tênues e sutis que acabam mascarando-a de sorte que as vezes não conseguimos vê-la em alguma ideia e ao tentar aplicá-la onde ela já existia, acabamos por anulá-la por completo.
Vejamos um exemplo: dizer que violência gera violência ou dizer que um erro não justifica o outro. Ambas as frases são dignas de respeito, e são defendidas de acordo com a visão de que argumentos positivos para o convívio em sociedade as enaltecem e ao mesmo tempo servem para repudiar os negativos. Diante disso, alguns têm disseminado o ódio ao ódio, mas não o amor ao amor. Ser politicamente correto é ser brega, ser politicamente incorreto é ser "do contra" e "modista", estar em dúvida e fazer questionamentos é pregar o niilismo.
Lembro-me do filme "Operação Orquídea", em que alguns dissidentes do exército de Hitler queriam assassiná-lo, e o protagonista pergunta: "sim, e depois fazer o que?". Creio que hoje acontece algo parecido, devido ao grande número de informações a que somos expostos, principalmente pelos recursos da internet, de que dispomos cada vez mais, independentemente da classe social.
Não precisamos ser totalmente contra ou a favor de tudo que nos é oferecido e apresentado, nem é necessário bipolarizar todas as ideologias, basta entender (como diz FHC) que quando duas ideias diferentes se encontram, antes de refutar qualquer uma das duas, é preciso abrir espaço para o diálogo.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Habitantes do Pará, têm piedade de nós!
No dia 11 de dezembro de 2011, a população do Pará irá participar do plebiscito sobre o desmembramento do estado em três partes. A constituição estabelece que somente os cidadão diretamente interessados têm o direito de votar. Acredito ser essa divisão de interesse de todo brasileiro, mas como o termo "diretamente" só é aplicado a quem reside no atual estado do Pará, os demais serão obrigados a assistir a esse plebiscito de braços cruzados.
A questão é polêmica, ou seja, argumentos contra e a favor são defendidos. Os argumentos a favor são todos parecidos com promessas de campanha política em véspera de eleições, o mais apelativo deles sendo o de que a divisão proporcionaria melhor atendimento às comunidades carentes que vêm sofrendo com falta de necessidades básicas como saneamento, saúde e educação. O que há de concreto e verificável nessa ideia? Nada, ela é bonita e sedutora, assim como foram as promessas de campanha de quem foi eleito se comprometendo a acabar com os mesmos problemas.
E o que poderiam os muitos "indiretamente interessados" alegar para não apoiar a criação de mais 2 novos estados, promessas de que sem o desmembramento a miséria da população carente diminuirá? Mais do que sedutor, eis um argumento verificável, técnico, tangível, claro e inegável: mais dinheiro sairá do bolso do contribuinte brasileiro residente em qualquer estado, e sem nenhuma garantia de que tal pagamento compulsório será bem aplicado, exceto por promessas que ouvimos há séculos (daqui a 6 anos José Sarney completará meio século de promessas não cumpridas, para se ter uma ideia).
O congresso nacional é composto por 513 deputados federais e 81 senadores. São 594 legisladores muito bem pagos para exercer funções típicas (legislar = fazer leis) e atípicas (fiscalizar os gastos do poder executivo). Cada um desses 594 excelentes (oficialmente eles são reconhecidos pelo pronome de tratamento de Vossa Excelência, até o Tiririca) tem direito de nomear mais algumas pessoas, cujos salários sairão do bolso do contribuinte. Cada excelente tem também direito a muito mais prerrogativas que qualquer um do povo não tem, como plano de saúde especial, imunidade parlamentar etc... Mas alguns podem se perguntar por que estou inserindo esses dados, e a resposta é óbvia: a criação dos estados de Tapajós e Carajás irá aumentar também o número dessas criaturas excelentes, com todas essas prerrogativas que lhe são conferidas: 8 deputados federais e 3 senadores. Some-se a isso os mais de vinte deputados estaduais, 2 governadores, 2 prefeitos, vereadores e toda a estrutura para albergar toda essa excelente cambada. Sem levar em consideração eventuais desvios de verbas, isso custará milhões de reais mensais.
Criar mais dois estados é como aumentar a conta da contribuição sem gerar receita. É como dar dinheiro a quem não precisa, achando que tal verba seria aplicada em programas em benefício de quem realmente necessita. Se a administração no Brasil é ineficiente, aumentar o número de administradores em vez de melhorar a atuação dos mesmos não faz nenhum sentido. Assistamos então ao plebiscito e vejamos se os "diretamente interessados" preferem fazer valer à excelência de seu voto o poder de veto aos aspirantes ao título de excelência ou dar-lhes tal condição e mandar a conta para o resto do país dividir.
A questão é polêmica, ou seja, argumentos contra e a favor são defendidos. Os argumentos a favor são todos parecidos com promessas de campanha política em véspera de eleições, o mais apelativo deles sendo o de que a divisão proporcionaria melhor atendimento às comunidades carentes que vêm sofrendo com falta de necessidades básicas como saneamento, saúde e educação. O que há de concreto e verificável nessa ideia? Nada, ela é bonita e sedutora, assim como foram as promessas de campanha de quem foi eleito se comprometendo a acabar com os mesmos problemas.
E o que poderiam os muitos "indiretamente interessados" alegar para não apoiar a criação de mais 2 novos estados, promessas de que sem o desmembramento a miséria da população carente diminuirá? Mais do que sedutor, eis um argumento verificável, técnico, tangível, claro e inegável: mais dinheiro sairá do bolso do contribuinte brasileiro residente em qualquer estado, e sem nenhuma garantia de que tal pagamento compulsório será bem aplicado, exceto por promessas que ouvimos há séculos (daqui a 6 anos José Sarney completará meio século de promessas não cumpridas, para se ter uma ideia).
O congresso nacional é composto por 513 deputados federais e 81 senadores. São 594 legisladores muito bem pagos para exercer funções típicas (legislar = fazer leis) e atípicas (fiscalizar os gastos do poder executivo). Cada um desses 594 excelentes (oficialmente eles são reconhecidos pelo pronome de tratamento de Vossa Excelência, até o Tiririca) tem direito de nomear mais algumas pessoas, cujos salários sairão do bolso do contribuinte. Cada excelente tem também direito a muito mais prerrogativas que qualquer um do povo não tem, como plano de saúde especial, imunidade parlamentar etc... Mas alguns podem se perguntar por que estou inserindo esses dados, e a resposta é óbvia: a criação dos estados de Tapajós e Carajás irá aumentar também o número dessas criaturas excelentes, com todas essas prerrogativas que lhe são conferidas: 8 deputados federais e 3 senadores. Some-se a isso os mais de vinte deputados estaduais, 2 governadores, 2 prefeitos, vereadores e toda a estrutura para albergar toda essa excelente cambada. Sem levar em consideração eventuais desvios de verbas, isso custará milhões de reais mensais.
Criar mais dois estados é como aumentar a conta da contribuição sem gerar receita. É como dar dinheiro a quem não precisa, achando que tal verba seria aplicada em programas em benefício de quem realmente necessita. Se a administração no Brasil é ineficiente, aumentar o número de administradores em vez de melhorar a atuação dos mesmos não faz nenhum sentido. Assistamos então ao plebiscito e vejamos se os "diretamente interessados" preferem fazer valer à excelência de seu voto o poder de veto aos aspirantes ao título de excelência ou dar-lhes tal condição e mandar a conta para o resto do país dividir.
domingo, 27 de novembro de 2011
Brick by brick, BRIC bye BRIC
A taxa crescente na economia dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e Coreia) tem sido motivo de orgulho, e a taxa decrescente na economia dos países ricos tem sido motivo de tormento. Isso em linhas gerais, pois economistas como Maílson da Nóbrega andam torcendo o nariz (a maioria não tem mais cabelos para arrancar) em relação à volta da inflação no Brasil. O presidente do Banco Central diz que a inflação acima da meta fixada para o ano de 2011 já era esperada e que ela será alcançada em 2012.
Tombini já trabalhou no FMI, tem uma grande experiência em se tratando de economia, foi indicado pela presidente Dilma de acordo com a meritocracia, o que é de se orgulhar levando em conta as tradições políticas brasileiras, mas o que mais chama a atenção na declaração acima é a retórica.
Ver o ministro do trabalho Carlos Lupi esbravejando e mentindo descaradamente quando pergunta "como é mesmo o nome dele?" não causa nenhuma confusão sobre o fato de Lupi ser péssimo ator e político brasileiro, basta imaginar no absurdo que seria alguém se perguntando "qual é mesmo a cor do café preto?", mas é preciso ser um pouco mais atento ao se deparar com frases como a de Tombini sobre a a meta da inflação de 2011. Vejamos: se a meta do índice inflacionário para esse ano era de 4.5%, e se era sabido que esse número seria ultrapassado, então para que estabelecer um número menor do que se espera? É como dizer: "vou parar de fumar ano que vem", e no ano que vem dizer: "já era esperado que eu não cumpriria a promessa".
Essa velha retórica antiga já é velha e antiga, por isso não costuma pegar desprevenido quem as ouve com atenção. A novidade que tem animado milhões de pessoas com renda acima de 70 reais por mês - e por isso acima da linha da miséria - são os números. Quando Sarney era presidente, dizia-se que a inflação ia ser controlada, e passava de 30% ao mês. Hoje se diz que ela vai ficar em 4.5% ao ano, e quase chega aos 7%. Os números sobre os BRICs ensejam esperança; os sobre as potências desenvolvidas, revolta (para eles, não para nós). Acima dos países pobres, dos ricos e dos emergentes está um instrumento que deflagra desigualdades em massa em qualquer lugar: a crise financeira mundial que tem em seu núcleo as instituições financeiras privadas. Portanto, os números sempre aumentam e diminuem. Talvez Maílson da Nóbrega tenha razão, talvez não.
Tombini já trabalhou no FMI, tem uma grande experiência em se tratando de economia, foi indicado pela presidente Dilma de acordo com a meritocracia, o que é de se orgulhar levando em conta as tradições políticas brasileiras, mas o que mais chama a atenção na declaração acima é a retórica.
Ver o ministro do trabalho Carlos Lupi esbravejando e mentindo descaradamente quando pergunta "como é mesmo o nome dele?" não causa nenhuma confusão sobre o fato de Lupi ser péssimo ator e político brasileiro, basta imaginar no absurdo que seria alguém se perguntando "qual é mesmo a cor do café preto?", mas é preciso ser um pouco mais atento ao se deparar com frases como a de Tombini sobre a a meta da inflação de 2011. Vejamos: se a meta do índice inflacionário para esse ano era de 4.5%, e se era sabido que esse número seria ultrapassado, então para que estabelecer um número menor do que se espera? É como dizer: "vou parar de fumar ano que vem", e no ano que vem dizer: "já era esperado que eu não cumpriria a promessa".
Essa velha retórica antiga já é velha e antiga, por isso não costuma pegar desprevenido quem as ouve com atenção. A novidade que tem animado milhões de pessoas com renda acima de 70 reais por mês - e por isso acima da linha da miséria - são os números. Quando Sarney era presidente, dizia-se que a inflação ia ser controlada, e passava de 30% ao mês. Hoje se diz que ela vai ficar em 4.5% ao ano, e quase chega aos 7%. Os números sobre os BRICs ensejam esperança; os sobre as potências desenvolvidas, revolta (para eles, não para nós). Acima dos países pobres, dos ricos e dos emergentes está um instrumento que deflagra desigualdades em massa em qualquer lugar: a crise financeira mundial que tem em seu núcleo as instituições financeiras privadas. Portanto, os números sempre aumentam e diminuem. Talvez Maílson da Nóbrega tenha razão, talvez não.
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